CEP recebe palestra de Olivio Jekupe e Jovina Rahn Gã sobre arte e literatura indígena 28/04/2026 - 10:14
No dia 27 de abril de 2026, o Colégio Estadual do Paraná abriu suas portas para uma escuta historicamente negada: a do escritor Olívio Jekupe, do povo Guarani, e da escritora e artesã Jovina Rehn Gã, do povo Kaingang, em uma palestra sobre literatura e arte indígena. Realizado no Salão Nobre da instituição, o encontro reuniu professores e estudantes em torno de narrativas que deslocaram o olhar hegemônico sobre a história do Brasil, agora contada do ponto de vista indígena. A atividade também evidenciou a potência da arte e da literatura como formas de reafirmação existencial e de resistência desses povos.
A palestra buscou operar como uma fissura no currículo monocultural que historicamente caracteriza a escola brasileira. Ao trazer para o centro do debate pessoas indígenas como produtores de conhecimento legítimo, e não como objetos de estudo folclorizado, a prática questionou o “etnocentrismo pedagógico” — conceito que denuncia a naturalização de um único modo de ver e explicar o mundo, eurocentrado, como universal. A presença de Jekupe e Jovina desestabilizou o que a teoria antropológica chama de “regimes de verdade” escolares, nos quais a oralidade, a mitologia e a estética indígena costumam ser hierarquizadas como saberes menores. Assim, o evento confrontou o epistemicídio — o apagamento sistemático de epistemologias outras — que estruturou a educação nacional, reconhecendo os povos originários como interlocutores contemporâneos, e não como reminiscências do passado.
Na perspectiva da educação antirracista, a atividade constituiu uma ação concreta de enfrentamento aos preconceitos estruturais que recaem sobre os povos originários. Mais do que uma “inclusão” pontual de conteúdos, tratou-se de uma experiência de reeducação das relações étnico-raciais, conforme preconiza a Lei 11.645/2008. A palestra buscou desmontar estereótipos coloniais enraizados no imaginário escolar — como o do “indígena genérico” ou do indígena desprovido de produção intelectual — ao apresentar a literatura e a arte indígena como campos vibrantes de criação, crítica e pensamento. Nesse sentido, a iniciativa não apenas ampliou o repertório cultural, literário e crítico dos presentes, mas promoveu o letramento racial necessário para que as escolas deixem de ser um espaço de reprodução do racismo epistêmico. A escuta ativa dessas vozes historicamente silenciadas no processo de ensino-aprendizagem é, em si, um gesto de justiça curricular. Afinal, como argumenta a pedagogia decolonial, a ausência desses discursos na formação escolar não é uma lacuna neutra, mas um mecanismo ativo de produção e manutenção de desigualdades. Ao romper com essa lógica, o Colégio Estadual do Paraná reafirmou seu compromisso com uma educação verdadeiramente democrática, integral e antirracista. Nela, a pluralidade de vozes não é um adereço multicultural, mas o próprio fundamento de uma formação cidadã comprometida com a dignidade de todos os povos.






















