PINACOTECA DO CEP: Theodoro de Bona 17/10/2017 - 16:50
O Colégio Estadual do Paraná possui um patrimônio cultural adquirido e acumulado ao longo de toda a sua trajetória, destacando-se uma pinacoteca. Essa coleção é um patrimônio público de grande valor histórico e de qualidade estética. Atualmente, é composta de vinte e oito obras de dezoito artistas, sendo muitos paranaenses, como o premiado Theodoro De Bona (1904-1983), Guido Viaro (1897-1971), Miguel Bakun (1905-1963), Poty Lazzarotto (1924-1998), entre outros. Grande parte desse acervo é composto por trabalhos de ex-estudantes, ex-professores, e até de artistas que tiveram vínculos distintos com o colégio, como Luis Carlos Andrade Lima (1933-1998) e Jarbas Schünemann (1951-1992). A distribuição dessa pinacoteca se concentra em três ambientes específicos no Colégio Estadual do Paraná: no Salão Nobre, na Direção Geral e na Escolinha de Arte. Embora não se tenha o registro exato do início dessa coleção, a obra mais antiga data de 1887, “Nossa Senhora e o Menino Jesus”, do artista Joseph Weiss (1861-1952) e, por se tratar de uma coleção aberta, ainda recebe novas obras, como os recentes óleos sobre tela (2005), da artista Dulcirene Montanha Moletta (1941), doados em 2008.
REFERÊNCIA: GEORGE, Lorene de. Posse e valor: uma prática educativa em arte a partir da pinacoteca do CEP. In: PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação. Superintendência de Educação. O professor PDE e os desafios da escola pública paranaense, 2008. Curitiba: SEED/PR., 2011. V.1. (Cadernos PDE). Disponível em: <www.gestaoescolar.diaadia.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=20>. Acesso em DD/MM/AA. ISBN 978-85-8015-039-1.
ACERVO DA PINACOTECA DO CEP

Theodoro de Bona
Theodoro de Bona nasceu em Morretes, em 11 de junho de 1904, numa casa próxima à cidade, na estrada de Anhaia. Seu pai, Antonio de Bona, veio com o irmão Ancângelo, de Verrumo Ignez, situada no norte da Itália, com o intuito de trabalhar no Brasil, mas não eram, propriamente, imigrantes.
Já em Curitiba, seu pai casou-se com a primeira mulher. Com o falecimento desta, Antonio de Bona decidiu mudar para Morretes, onde casou-se com Cesira, da família Bertazzoni, também italianos.
De Bona veio estudar em Curitiba, onde começou a ter aulas com Gina Bianchi, porém foi João Ghelfi que aconselhou a procurar Alfredo Andersen, em cujo atelier frequentado por Traple, Freyesleben, Taborda Júnior e Augusto Perneta, ingressou em 1922.
Incentivado por Turin e Lange de Morretes, resolveu aperfeiçoar seus estudos na Europa, conseguindo, através do município de Morretes e do Governo do Estado, uma pequena subvenção que duraria dois anos. Em 1927 partiu para a Itália, estabelecendo-se em Veneza. Admitido na Real Academia de Veneza, seguiu os cursos ministrados pelos mestres Ettore Tito e Vicenzo Stefani, permanecendo naquela cidade por 10 anos.
Permaneceu na Itália mesmo após o término da bolsa de estudos que conseguira, participando de todos os grandes eventos turísticos nacionais e vivendo, então, com recursos advindos de sua própria arte.
Em 1940 passou a residir no Rio de Janeiro, tomando parte de todos os Salões Nacionais de Belas Artes ocorridos entre 1940 e 1949.
Em 1943 foi medalha de prata do Salão Paranaense, do qual não só participou da criação, como elaborou o primeiro regulamento.
Entre os anos de 1947 e 1948 pintou a obra histórica Fundação de Curitiba que hoje pertence ao acervo do Colégio Estadual do Paraná.
De Bona expôs diversas vezes em Curitiba, mesmo durante o período em que residiu no Rio de Janeiro, recebendo inúmeras premiações, como a medalha de ouro do III Salão do Clube Concórdia, em 1950.
Em 1952 participou, pela primeira vez, de uma mostra conjunta realizada nos salões da Associação Comercial do Paraná. Nesse mesmo ano, sob encomenda do Governo do Estado, pintou a composição de cunho histórico A Instalação da Província do Paraná, atualmente acervo do Palácio Iguaçu.
Em 1954 recebeu a medalha de prata no Salão Municipal de Belas Artes do Distrito Federal.
Em 1960 o pintor voltou a residir em Curitiba, assumindo a cadeira de desenho artístico e pintura na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, cuja direção exerceu de 1970 a 1974.
Como artista, De Bona tornou-se um dos grandes nomes da pintura paranaense, pois, apesar de ser oriundo da pequena Morretes, elevou seu nome e o do Paraná para além das fronteiras.
De Bona faleceu em 20 de setembro de 1985.
Referência
COLÉGIO ESTADUAL DO PARANÁ. Acervo da Pinacoteca. Curitiba: Imprensa Oficial, 2002.
Obras de Theodoro De Bona no CEP
Fundação de Curitiba (1947-1948)
Segundo depoimento de Theodoro De Bona, a grande tela Fundação de Curitiba foi pintada no Rio de Janeiro, sob encomenda do Prefeito de Curitiba, Algacyr Mäder. O artista inspira-se em duas lendas: “Taki Kéva” e o “Primeiro Milagre de Nossa Senhora dos Pinhais”, publicadas em 1940, no livro Paiquerê, de autoria de Romário. Ao fundi-las, aproxima-se do relato do historiados Ruy Wachowicz. Conta a lenda que os moradores da Vilinha, localizada no Atuba de hoje, veneravam uma imagem de Nossa Senhora da Luz que todas as manhãs estava com o olhar voltado para o lado, onde queria que se erigisse sua igreja definitiva. Resolveram os moradores mudar a sede da povoação. Em sinal de amizade com os indígenas que habitavam a região, convidaram o cacique Arakxó (Gralha Branca) para indicar-lhes o local apropriado. Este, atendendo ao convite – após procurar demoradamente o lugar – assinalou-o com sua urugurú (lança), jamais vencida nos combates: fincou-a no solo dizendo “TAKI-KÉVA” (É aqui) e ainda, “CORE-ETUBA” (muito pinhão aqui) que deu origem ao nome da cidade de Curitiba.
A vara do chefe índio brotou, criou raízes, se fez árvore, floriu, frutificou. Suas ramadas deram abrigos e alimento às aves do céu que as encheram de ninhos e que saudaram com cânticos as madrugadas de nossa história.
A complexa composição idealizada por Theodoro De Bona presta-se a múltiplas leituras; todavia sobressai-se a característica de se tratar de uma obra minuciosamente elaborada, a partir de profundo estudo de grandes obras da História da Arte Universal.
Prevalece, no plano superior, uma horizontalidade dominante, apenas quebrada pelas árvores à nossa direita e esquerda, bem como por aquelas que se esboçam na linha do horizonte.
Na parte central da composição dá-se o encontro dos dois grupos: brancos à nossa esquerda, e índios à nossa direita. Se fizermos a leitura no sentido horizontal duas amplas curvas insinuam-se: seu entrelaçamento, justamente no centro da composição, forma um oito deitado, pouco acima do qual sobressai-se a imagem de Nossa Senhora da Luz, que está sendo mostrada por uma ancião – tratando-se de um subterfúgio empregado pelo artista para torná-la um dos focos principais da pintura. Segundo a simbologia universal, o oito é o número do equilíbrio cósmico; o que comprova que De Bona sonha um mundo mais justo, onde índios e brancos convivam harmoniosamente. Tal afirmativa é comprovada através da leitura em sentido vertical, cuja estrutura forma um livro semi-aberto que, em si, simboliza o universo.
O grupo de homens brancos em pé, mais solene e circunspecto, tem uma nítida influência das escolas flamenga, holandesa e espanhola do século XVII. Já os índios, mais espontâneos em suas atitudes, remetem-nos a Gauguin.
A figura do cacique Arakxó, com seu cocar branco, é a mais dinâmica do grupo. O artista representa-o no ato em que está levantando o braço para fincar a sua urugurú no solo, criando uma zona de tensão dinâmica, já que no esforço do movimento, apóia-se no arco, flexionando, paralelamente, a perna na diagonal. Para contemplar a cena, o índio ao seu lado movimenta a cabeça e o tórax, mantendo o antebraço flexionado para segurar a sua urugurú e arco. Também os demais índios do grupo central seguram suas urugurús e arcos, enquanto observam, atentos, o ato do cacique. Apenas uma índia, à direita do grupo, dá atenção ao filho. Os ritmos formados pelas diagonais e as leves curvas dos arcos emprestam ao todo uma sensação dinâmica.
Profundo conhecedor da Arte Italiana, é provável que segundo a tradição medieval perpetuada no Renascimento por artistas como Masaccio e Piero Della Francesca, também Theodoro De Bona tenha lançado mão da narração contínua (reminiscência do teatro medieval, também presente nas artes plásticas, segundo a qual cenas que se passam em termos distintos são representados em uma única composição). Partindo deste pressuposto, é possível afirmar que a árvore à direita do grupo central já seja a urugurú que criou raízes e floresceu. Sob ele três índios inserem-se em uma estrutura piramidal, representando, ao mesmo tempo, três fases da vida: a criança, o adolescente e o adulto.
O jovem índio que estende os braços para o alto, em sinal de adoração da natureza, tem uma nítida inspiração no Incêndio do Borgo, das Stanze de Rafael no Vaticano. Também não deixa de ter certa analogia com uma das últimas e mais características obras de Gauguin: “De onde viemos? Quem somos nós? Onde vamos?”. Se Gauguin inspira-se em um tema filosófico-religioso que se identifica com a cultura dos povos do Pacífico, não há dúvida de que De Bona faz a defesa da cultura indígena que soube criar, dentro das suas características peculiares, um mundo espiritual tão profundo quanto o do homem branco.
A infância é representada pelo indivíduo que segura um pássaro multicolorido. Se ele simboliza a idade da inocência, as fortes cores das penas vermelhas, amarelas e azuis afirmam não só os valores solares como a beleza da fauna do Brasil Meridional. Já na indiazinha adolescente que se aproxima está implícito o despertar para a vida.
Outros índios espalham-se pela cena. Todavia, chama a nossa atenção o índio sentado à direita em primeiro plano que representa, talvez, a imobilidade que o homem branco trouxe para as várias nações indígenas; se não, a sua total extinção.
O lado esquerdo da composição é mais complexo; ressentindo-se da influência do Seicento Italiano, dos Mestres Venezianos do Settecento e de Morelli, entre o verismo e o romantismo. A estrutura ondula-se em torno de uma semi-oval. Há uma multiplicidade de personagens, não faltando, ainda, animais (cavalo e cachorro). Sob uma árvore várias pessoas abrigam-se sob um rústico baldaquino construído para proteger o andor de Nossa Senhora da Luz durante o trajeto. Ao seu lado um escravo segura um cavalo, sendo que, à sua direita, está representado um trabalhador rural. Inserida em uma estrutura piramidal uma mãe amamenta seu filho; uma mulher à esquerda contempla a cena. Pouco acima uma senhora em pé é representada com um característico toucado, sendo que sua atenção se volta para o grupo central.
Na parte inferior, um menino – provavelmente um aguadeiro – que parece estar caminhando, acompanhado por seu cachorro, dinamiza a composição.
Um caminho sinuoso conduz nosso olhar da esquerda para a direita e da direita para a esquerda criando um ritmo melódico que envolve o espectador.
Não há dúvida que com a “Fundação de Curitiba”, Theodoro De Bona inaugura oficialmente a iconografia Histórica na Arte Paranaense.
Referência
COLÉGIO ESTADUAL DO PARANÁ. Acervo da Pinacoteca. Curitiba: Imprensa Oficial, 2002.
Terra Prometida (1934)
Assim como os imigrantes poloneses ofereceram ao Paraná a escultura “O Semeador”, de Zaco Paraná, hoje na Praça Eufrasio Correia, Theodoro De Bona, em Terra Prometida, não só homenageia seus avós maternos, com descreve a saga italiana, em sua chegada ao Paraná.
À primeira vista lembra o realismo de Courbet, porém uma análise mais detalhada revela que esta obra – apesar de sua aparente espontaneidade – foi meticulosamente estudada através dos Grandes Mestres da Pintura Universal, principalmente italiana; tornando-se evidente as influências de Rafael, Michelangelo e dos artistas venezianos.
Theodoro De Bona divide visualmente a composição em duas áreas e duas estruturas piramidais; sendo que à direita os personagens, em primeiro plano, são maiores, melhor enfocados e, no segundo plano, menores e mais desfocados.
A pintura é vigorosa; além de seu aspecto construtivo, comove-nos pelo espírito afetivo e, ao mesmo tempo, tendência épica.
Os três personagens à nossa direita são muito fortes. O patriarca da família (seu avô) – vestido como os imigrantes do século XIX, com colete e chapéu – com uma mão segura o cajado e, com a outra, aponta para o horizonte; repetindo o gesto dinâmico do Criador de Michelangelo, na capela Sistina.
Ao seu lado um rapaz, provavelmente um dos tios de Theodoro De Bona, torna-se um pretexto para o artista auto-retratar-se, quando jovem.
A mulher (sua avó) sentada sobre um tronco de árvore, como nas figuras rafaelescas e a lá Michelangelo, conjuga suavidade e vigor, fazendo um contraponto com a forte figura do Patriarca. Representada na postura da mãe que amamenta o bebê, está perdida em seus próprios pensamentos. O vigoroso desenho dos pés lembra a figura de “Apolo no Parnaso”, de Rafael, na Stanza dela Segnatura.
Do lado esquerdo, em primeiro plano, estão seus apetrechos. Mais atrás, sobre uma ondulação que sugere o alto de uma colina, está um outro casal. A jovem com um lenço vermelho na cabeça, com seu ar tímido, segura uma valise de viagem nas mãos. O rapaz que a acompanha, vigorosamente delineado, é representado com o braço na cintura. Ambos seguem com o olhar o gesto do patriarca. Ao seu lado um ancião apóia-se em um longo cajado.
Mais à esquerda vê-se as silhuetas de outro casal. Ele repete o gesto do patriarca, apontando para o horizonte.
Pode-se observar, ainda, que entre os grupos da direita e da esquerda, o artista delineia, ao fundo, a figura de um homem carregando um fardo às costas.
Não há dúvida que nesta obra Theodoro de Bona compõe com pincel e cores um Canto Épico à saga dos imigrantes italianos que tanto contribuíram com seu trabalho para a construção do sul do país.
Referência
COLÉGIO ESTADUAL DO PARANÁ. Acervo da Pinacoteca. Curitiba: Imprensa Oficial, 2002.
Paisagem
Paisagista por excelência, é justamente nas paisagens que Mestre De Bona se revela por inteiro.
Essa pintura datada de 1943, feita ao “ar livre”, registra com pleno lirismo os arredores de Curitiba; sendo que os pinheiros funcionam como ícones, situando-a geograficamente.
Há um vasto campo de um verde amarelo cuja planimetria é quebrada, em primeiro plano, por manchas verdes mais escuras no chão, certamente sombras de árvores que não se vê; bem como pelos ritmos verticais dos palanques das cercas de arame, que cortam a composição à esquerda até a parte central, funcionando, em sua repetição rítmica, como acordes musicais de uma canção.
Bem no centro da composição uma árvore de cor verde funciona como um foco visual de atenção, o que é sublinhado por outras árvores amarelas e verdes regularmente dispostas que se alternam com outros palanques com varais de roupas, as quais balançam levemente ao vento, como alegres bandeirolas.
Logo abaixo do primeiro varal, caminham em direção do espectador um homem e uma criança vestida com uma alegre blusa vermelha.
Á esquerda uma mancha azulada indica a presença de água, certamente um pequeno banhado.
Na linha do horizonte delineiam-se árvores e casas, indicando a cidade.
O céu de um azul límpido coroa o todo com seu delicado matriz azulado.
Referência
COLÉGIO ESTADUAL DO PARANÁ. Acervo da Pinacoteca. Curitiba: Imprensa Oficial, 2002.
Paisagem de Guaratuba
Um rústico galpão de madeira, com a porteira aberta – construído à beira mar do litoral paranaense – é pretexto para o artista mostrar a beleza da paisagem de Guaratuba.
Ele pinta a cena de dentro do galpão, que serve de ancoradouro para os barcos, fazendo-nos entrever três deles, em perspectiva.
O espaço entre os barcos indica a posição em que se encontra o artista ao pintar esta paisagem.
À nossa direita há um único barco menor, com ênfase aos sépias que oscilam entre o alaranjado e o marrom; cores aliás predominantes no ambiente, indicando que está na sombra.
Já à nossa esquerda o primeiro barco tem cores cinzas e uma rede, dando a impressão de ser o maior dos três. O segundo, próximo à porteira, é pintado de azul.
O enquadramento desta obra, bastante curioso, estrutura-se em um retângulo menor (paisagem) que, por assim dizer, se insere no retângulo maior (galpão de madeira).
O peso virtual da porteira e dos barcos à esquerda é equilibrado pelo tronco de madeira que sustenta a cobertura e pelo barco menor à direita.
A paisagem que se entrevê é gloriosa na sua leveza mágica, lembrando a memória visual inesquecível que retemos de Veneza, com suas brumas e suas luzes douradas.
Com toques impressionistas, Theodoro De Bona constrói a paisagem. Ele consegue captar a leveza da atmosfera, o movimento das águas do mar, onde os barcos e barqueiros balançam, suavemente, ao seu sabor.
Os leves toques verdes e azuis delineiam a baía que se confunde com o mar.
Referência
COLÉGIO ESTADUAL DO PARANÁ. Acervo da Pinacoteca. Curitiba: Imprensa Oficial, 2002.


