DA BANALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA 15/09/2008 - 16:20
Colégio Estadual do Paraná – Ensino Fundamental, Médio e Profissional
align= center> Por Robson Gaievski – Professor de Filosofia do CEP Quando algo que deveria nos chocar, provoca a indiferença de muitos ou o que ainda é pior – torna-se motivo de diversão para alguns, é sinal de que há algo de muito equivocado no meio social em que vivemos. Numa sociedade moralista como a nossa que costuma pregar valores que não respeita, exigir direitos e ignorar deveres, utilizar-se de dois pesos e duas medidas (um para mim e um diferente para o outro) é algo bastante comum. A banalização da violência tem sido a tônica de nossos dias. Parece difícil até definir um conceito geral de violência. Qual a linha que separa a violência da irresponsabilidade e da brincadeira? Parece tão tênue, não é mesmo? Quando é praticada por mim, chamo de brincadeira. Quando é praticada pelo outro, chamo de irresponsabilidade e quando não tenho simpatias pelo outro, chamo de violência. Tem sido freqüente aqui no CEP incidentes com bombas. São fatos lamentáveis que pedem um pouco de reflexão e diga-se de passagem, reflexão é a “nossa praia”. Embora refletir não seja exclusividade da Filosofia, como professor desta disciplina, senti-me chamado para estabelecer uma “conversa de perto” sobre o tema com todos os que acessam nosso site (pais, professores e alunos- mesmo aqueles que não são meus alunos). Em 1999 eu ainda era um adolescente e estudava num colégio particular em União da Vitória. Estava então na 2ª série do Ensino Médio. Tive uma adolescência comum; não era um “santo” de um adolescente, mas também não estava no grupo dos “terríveis”. Porém um fato marcou profundamente este período da minha vida. Alguns colegas meus resolveram às vésperas da festa junina, fabricar uma bomba para segundo eles dar uma “agitada” no evento . Seria apenas uma brincadeira para pregar um susto na galera e arrancar boas risadas no final. Mas infelizmente as coisas nem sempre saem como planejamos, não temos o controle total sobre boa parte de nossos atos. A “brincadeira” terminou de maneira trágica com a morte violenta de um dos garotos e com destruição de parte da sua casa. O outro colega quase perdeu os dois braços, se recuperando parcialmente mais tarde após muitas cirurgias. No ano seguinte eu passei a estudar com o seu irmão, que era uma pessoa muito consciente, bacana, responsável e muito preocupado com seus colegas. Nas conversas, nunca tocávamos no assunto devido a sua gravidade, mas era perceptível a preocupação que ele tinha com as suas atitudes e conseqüências. Mas o que mais me marcou foi o fato de conhecer os envolvidos, o ambiente em que a brincadeira se desenvolveria, e o mais importante: as conseqüências daquele ato que foram gravíssimas e que poderiam ter atingido muitas outras pessoas além dos mentores do projeto, caso a bomba tivesse sido detonada no meio da festa como fora previsto inicialmente. Hoje sou adulto, professor, mas confesso que a menor das explosões me abala e me remete àqueles dias. Penso no colega que morreu e no colega que ficou mutilado e não consigo deixar de pensar que isso pode acontecer de novo perto de mim, com algum de meus alunos. Por isso resolvi escrever este texto que pode até parecer um exagero para alguns, mas para mim é apenas preocupação com as pessoas que estão à minha volta – alunos e funcionários. O que deve ser pensado sobre os últimos acontecimentos envolvendo tais atitudes é o objetivo das mesmas. Para que? A resposta objetiva e direta poderia ser: para destruir o meu próprio patrimônio. Para quem? Para um colega que esteja vivendo seu dia de forma rotineira e sequer imagina que terá de enfrentar conseqüências diretas pelas atitudes impensadas de seus colegas. Existem inúmeras formas de protestos e manifestações através dos quais podemos ser vistos e atendidos. Mas, esta é com certeza a mais inconseqüente de todas. Pois é uma atitude que interfere diretamente na vida das OUTRAS pessoas, de maneira grave. O ambiente escolar é coletivo, é preciso ter o mínimo de esclarecimento que as ações particulares refletem no grupo. Temos nossas liberdades e nossas escolhas, mas devemos tomar um certo cuidado, por que a minha liberdade compreende o respeito à liberdade dos outros. Reclamamos que as coisas às vezes não vão bem. E qual a resposta que damos? Ajudamos de que maneira? Esta brincadeira muito irracional pode causar conseqüências graves a quem a pratica, que já é terrível, mas muito pior é atingir alguém que sequer sabe como funciona uma bomba (às vezes tenho dúvidas se quem detona uma bomba, sabe realmente como funciona). Que vive sua vida, que se preocupa com os outros, que luta pelos seus sonhos e que pode ter tudo isto interrompido por uma atitude que parece ser “divertida.” Exagero??? Acredito que uma mutilação possa pôr abaixo grande parte dos sonhos de um adolescente. Devemos pensar que somos seres sociais e sociáveis. “Nenhum homem é uma ilha”. Não vivo isolado! Aliás, para nós seres humanos viver é conviver. Quem destrói com bombas o patrimônio público não está destruindo o seu patrimônio. Está destruindo o nosso patrimônio e o que reivindico aqui é a parte que me cabe deste patrimônio. Talvez como disse uma aluna estes dias em uma aula, seja necessário olharmos o mundo com mais sensibilidade. É preciso compreender as coisas além do nosso umbigo. É preciso sentir na “pele” as conseqüências antes que elas aconteçam, porque a vida nos cobrará pelo que fizermos. É preciso saber o quanto a vida pode ser difícil e o quanto ela é. Fico muito preocupado com o que pode acontecer com estas práticas. Todos nós sabemos e reclamamos que seria necessário mais investimento para a educação, mais infra-estrutura. No entanto, vemos tais atos destruindo o que temos. Recursos sendo gastos para efetuar consertos. E a pergunta é? Não somos humanos? Não temos capacidade de reflexão? De compreensão? O que queremos para nós mesmos? O que fazemos por nós? Quem são e o que significam as pessoas que convivem conosco? Ou será necessário criar e carregar uma marca como a descrita no início deste texto para que daí sim passemos a olhar o OUTRO de maneira responsável e sensível. A nossa vida é cheia de surpresas, é importante e grandiosa demais, para que seja atingida por atos tão repudiáveis, mesquinhos e inconseqüentes. É muito difícil e incoerente considerar atitudes como estas como protesto. Protestar contra mim mesmo, atingir de maneira cruel as pessoas que eu gosto, convivo e atingir pessoas que jamais pediram nosso protesto através de um ato destes. As pessoas não pedem a nós tais atitudes, mas às vezes acabam sendo vítimas de uma irresponsabilidade nossa. Tenho acompanhado em certos blogs comentários de pessoas que se divertem com isso, daí concluo que há algo de muito errado em nossa sociedade. É assim que queremos democracia? Tripudiando por “diversão” sobre os direitos dos que convivem conosco? Isso é protesto ou é covardia? Sim, porque até mesmo os “terroristas”(aqueles que não são nós e que explodem bombas) assumem os atentados. Aqui o que vemos são meia dúzia de inconseqüentes, que se escondem atrás de outros irresponsáveis depois de seu ato. Eles podem rir e debochar depois, nos blogs, mas aqui, na hora se escondem como bebês assustados. É extremamente necessário refletir sobre estas atitudes e principalmente sobre o que elas possam vir a causar. Depois do gatilho apertado, não se poderá deter a bala. Depois do ato realizado o arrependimento pode não mudar nada. É preciso mudar e pensar as atitudes antes de suas conseqüências serem graves demais.

