Orquestra e Coro do CEP emocionam em Chapecó; pai de estudante que acompanhou a jornada compartilha testemunho 22/08/2025 - 18:00
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Aprendizado. Convivência. Demonstração de que a educação pública transforma vidas.
E muita arte, pela música.
São palavras que sintetizam a participação da Orquestra Sinfônica Bento Mossurunga e o Coro do Colégio Estadual do Paraná no 12º Encontro Brasileiro de Orquestras, ocorrido no último sábado, dia 16, em Chapecó (SC).
Diante de tamanha e ímpar experiência, o pai de um estudante integrante da Orquestra registrou em texto a emoção. Frisou, também, o papel da escola pública.
Confira:
A EXPERIÊNCIA DA PAIDEIA NA EDUCAÇÃO PÚBLICA
Tive a oportunidade de acompanhar a Orquestra Sinfônica Bento Mossurunga e o Coro do Colégio Estadual do Paraná durante o 12º Encontro Brasileiro de Orquestras, realizado em Chapecó (SC). Estava ali como pai, mas também como filósofo. A filosofia da educação, a pedagogia e toda a problemática que envolve a internalização do conhecimento se apresentavam diante de meus olhos em sua mais viva concretude. O simples fato de existir, em nosso país, uma orquestra sinfônica dentro de um colégio público já é, por si só, motivo de assombro e reflexão filosófica. Não se trata de delírio ou fantasia: é a própria vida educacional mostrando sua potência criadora.
No estacionamento do Colégio Estadual do Paraná, antes mesmo da partida, já se percebia a vibração dos jovens músicos. Apesar do frio curitibano de um sábado de inverno, havia sorrisos nos rostos e expectativa no ar. A jornada seria longa, dezesseis horas de viagem de bate-volta, mas a energia do grupo iluminava o labor que a arte exige. Aqui já se revela uma primeira dimensão da filosofia da educação: o aprender não se reduz à transmissão de conteúdos, mas se dá na convivência, no cultivo da disciplina e no exercício da alegria. Como afirmou Shinichi Suzuki (1994, p. 18) em sua obra Educação é Amor: “Muitas crianças crescem num ambiente que limita ou até danifica seu desenvolvimento...”. O que testemunhei foi o contrário: jovens que, amparados por um espaço público fecundo, se mostravam expansivos, livres e plenos de humanidade em realização.
Durante a viagem, entre risos, respeito mútuo e cantorias, percebi o quanto a arte é força pedagógica. Não precisei recorrer ao meu fone de ouvido: adolescentes de quinze e dezesseis anos cantavam Ella Fitzgerald, Louis Armstrong, Billie Holiday, Maysa, Tom Jobim. Essa espontaneidade estética é um sinal de que a educação, quando aberta à cultura e à sensibilidade, conduz naturalmente ao florescimento da interioridade. Como afirma Werner Jaeger (2003, p. 13) em Paideia: “A educação não é um adestramento exterior, mas a formação interior da alma, que a conduz para a sua verdadeira forma essencial”. Eis a tarefa suprema da pedagogia: não moldar por fora, mas despertar por dentro.
Ao chegarmos ao teatro, a vibração aumentou. Jovens músicos, impecavelmente trajados, atravessaram a rua cantando o hino do colégio. Não era apenas uma orquestra que adentrava o espaço: era a própria comunidade escolar celebrando sua identidade. E quando o maestro levantou sua batuta mágica, o que se revelou não foi apenas música, mas uma experiência formativa de caráter existencial. O público, tomado pela emoção, aplaudiu de pé, e aquele gesto coletivo de reconhecimento era também um gesto pedagógico, pois ensinava, a todos, a força da beleza.
Surge, então, a grande pergunta filosófica: como é possível que um colégio público consiga realizar tal milagre pedagógico? É preciso reconhecer que o talento não é privilégio hereditário; é antes fruto de cultivo, de tempo, de estímulo. Talento é semente, mas só floresce quando há solo fértil. Esse solo é constituído por professores atentos, por maestros inspiradores e por um ambiente educativo que valoriza a cultura. A ação do maestro Alessandro Gomes e dos educadores que acompanham os naipes e o coro é, nesse sentido, a própria tradução viva do ideal grego de paideia: a formação integral do ser humano através da beleza, da disciplina e da harmonia.
Conclui-se, portanto, que a arte tem papel central na formação do ser humano. Ela não apenas capacita, mas humaniza; não apenas ensina técnica, mas desperta a interioridade. Uma sociedade que cultiva a arte em seus espaços públicos é uma sociedade que se abre para a justiça e para o amor. A Orquestra Sinfônica Bento Mossurunga e o Coro do Colégio Estadual do Paraná permanecem, assim, como testemunhos vivos de que a educação, quando se alia à música, torna-se caminho de realização plena do ser humano.
FilósofoSeveriano
Inverno de 2025
Referências
JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
SUZUKI, Shinichi. Educação é amor. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1994.
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